Múltiplas Personalidades e Individuação

Ao longo de minha prática clínica, tenho me deparado com observações significativas sobre a estruturação e desenvolvimento de nosso psiquismo transpessoal, e que muito têm contribuído para minha compreensão do ser humano.
Uma situação instigante está sendo perceber que as pessoas não possuem uma personalidade única e global, construída a partir do somatório dos conteúdos acumulados das vidas sucessivas. É um fato que esta personalidade existe em formação, contudo, ela não elimina de pronto a existência das anteriores personalidades já vividas, que continuam coabitando o psiquismo com ela, guardando uma certa independência, muitas vezes por longo tempo.
Ou seja, somos o somatório de diversas personalidades que vivemos nas múltiplas reencarnações, construindo aquilo que podemos chamar de uma personalidade transpessoal ou cósmica, mas nessa construção, as personalidades anteriores não são imediatamente absorvidas no conjunto, ao contrário, algumas delas permanecem ativas e relativamente autônomas, mantendo suas características originais, emergindo para a superfície do psiquismo e exercendo influência direta sobre o pensamento e comportamento de acordo com as circunstâncias que possam evocá-las.
Vamos tentar explicar melhor, incluindo nessa explicação um resumo do modelo teórico de desenvolvimento do psiquismo.
As experiências vividas pelas diversas personalidades que já tivemos vão sendo registradas nas áreas superficiais do psiquismo. Quando da morte do corpo físico, a personalidade não se extingue, continuando como protagonista no período entre vidas (falo aqui de individualidades espirituais em nível primário e mediano de evolução e não daquelas já mais avançadas). No processo de retorno a uma nova encarnação, a personalidade anterior, então, vai sendo transferida para as zonas mais profundas do psiquismo, a nível do inconsciente, mantendo-se mais ou menos na superfície ou em profundidade de acordo com a atualidade das experiências ou da intensidade com que elas marcaram as estruturas energéticas. Isso quer dizer que vidas passadas mais recentes ou que foram muito marcantes do ponto de vista emocional, e não devidamente elaboradas, permanecem mais na superfície.
Por que isso acontece? Porque todas as experiências que já vivemos deverão se transformar em algum produto de aprendizagem, tornando-se patrimônio inalienável da individualidade. Quanto mais recente e mais intensa a experiência, mais difícil de ser elaborada e transformada nesse produto de aprendizagem. Por isso, permanecem mais na superfície, aguardando as novas experiências que ajudarão a promover a elaboração necessária desses conteúdos.
Então, existem personalidades que permanecem ativas no psiquismo e outras que já foram elaboradas e que se diluíram como produtos de aprendizagem nas profundidades psíquicas, formando, aí sim, a definitiva personalidade transpessoal ou cósmica.
Dessa forma, podemos identificar em terapias regressivas, que tratem de vidas passadas, personalidades anteriores que ainda estão ativas no psiquismo desse paciente, dependendo muitas vezes de circunstâncias específicas que funcionam como gatilhos para a sua emersão.
Quase sempre são aquelas situações em que o Ego atual diz não conseguir controlar, levando a pensamentos e atitudes que preferiria não realizar, mas que são mais fortes do que ele.
Um exemplo bem marcante dessa realidade foi um paciente, hoje do sexo masculino, que já teve uma vida como um comandante guerreiro de muita força, outra como um escravo abusado sexualmente e outra como um contador traído pela própria irmã. Na vida atual, os comportamentos desses três personagens aparecem de forma quase autônoma em situações específicas: reagindo com muita agressividade e poder de força, se submetendo passivamente ou subjugado pelos seus conflitos sexuais.
A idéia de individuação desenvolvida por Carl Gustav Jung pode se aplicar de forma bastante apropriada para a formatação desses conceitos, apesar dele a princípio não levantar a existência de múltiplas encarnações mas de múltiplos aspectos da natureza psíquica, denominados por ele de arquétipos. Esses arquétipos, além de conteúdos simbólicos como ele definiu, me parecem ser também compostos pelas diversas encarnações da individualidade.
A individuação, como meta de saúde psíquica, nada mais seria do que o caminho em direção à personalidade síntese, transpessoal ou cósmica, englobando todas as experiências pregressas devidamente elaboradas como produtos de aprendizagem.
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João Carvalho Neto
Psicanalista, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal”.
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